O Blogue das Bibliotecas Escolares / Centro de Recursos Educativos do Agrupamento de Escolas Alfredo da Silva surge com o objetivo de manter informada toda a comunidade educativa sobre os recursos que se vão adquirindo, as atividades que se realizam e outros assuntos considerados de interesse.
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quarta-feira, junho 03, 2020

Uma história em tempos de Covid -19

Um dia, mais precisamente, a 20 de março de 2035…


 - Pai, quando eu for grande, vou ser caçador de dragões!
-Ai, é?- perguntou Daniel, divertido com a exclamação do filho Filipe.
-O Guilherme contou-me que só os caçadores de dragões é que têm futuro.
-Precisamos de te treinar, então. De manhã iremos à procura de dragões, porque eles estão a dormir agora.
Daniel deu um beijinho de boa noite ao filho, dirigindo-se, então, para a cama da filha Madalena que estava muito pensativa.
-Em que é que estás a pensar, filhota?
Madalena permaneceu em silêncio durante mais alguns segundos. Por fim, olhou para o pai com um ar muito sério.
-Como é que tu e a mãe se conheceram?
Os olhos de Daniel brilharam: esperara por aquela pergunta durante muito tempo. Filipe sentou-se na cama, também entusiasmado pela história que o pai estava prestes a contar.
-Bem, tudo começou há quinze anos atrás, em março de 2020…
 Daniel lembrava-se desse dia como se fosse ontem:
13 de março de 2020
Acabara de voltar da escola, numa tarde chuvosa, quando a mãe lhe deu a notícia de que não iria lá voltar. Um vírus estava a propagar-se mais depressa do que se esperava e aquela medida fora tomada por precaução. Daniel alegrou-se, pois o medo que tinha do vírus era maior do que as saudades que iria sentir da escola: todos os dias Daniel era gozado e a única amiga que tinha era a senhora da cantina. Para além disso, gostava de ficar em casa e teria mais tempo para estudar.
Nos dias que se seguiram, Daniel e a sua família respeitaram todas as medidas impostas pelo governo, mas o mesmo não se podia dizer dos seus vizinhos do lado, os Pereira. Nesta casa não havia preocupação com a situação que se estava a viver e o suposto isolamento era apenas uma desculpa para esta família entrar em modo férias.
Um dia, Daniel, ao ir despejar o lixo, encontrou Teresa Pereira e as suas amigas que atravessavam a rua naquele instante. Estas vinham desprotegidas, o que preocupou Daniel.
-Eu tenho algumas máscaras a mais em casa, se quiserem…
-Máscaras são para meninos como tu que se querem esconder. Isto não passa de uma mera gripe.
Daniel corou e baixou a cabeça.
Revirando os olhos, Teresa e as amigas continuaram a descer a rua, rindo-se dele.
-Idiota.- murmurou Teresa.
Nas semanas que se seguiram, não houve sinal de Teresa. Daniel não podia dizer que sentia saudades, mas estranhava a sua ausência.
Um dia, estava ele a brincar no seu quintal com o seu cão Freddie, quando ouviu uma voz a chamá-lo. Aquela voz parecia-lhe familiar. Seria Teresa? Aproximou-se da cerca. Do outro lado encontrava-se Teresa de máscara.
-O que se passa?- perguntou Daniel, preocupado. – Tu, de máscara?
-Não te aproximes muito da rede!
-Porquê?
-Tinhas razão! Isto não é apenas uma gripezita. É muito mais do que isso! O meu pai está no hospital.
Sem hesitar, Daniel recua.
-Não te vás embora, por favor. Já me custa não poder estar com as minhas amigas, quanto mais ter de ficar aqui sozinha.
-Então, eu sou o teu plano B, é isso?- Daniel estava receoso. A sua vizinha estava infetada e estava mesmo ali, à sua frente.
-Não! Percebeste tudo mal! Já que estamos aqui os dois, não há problema nenhum em conversarmos um bocadinho, certo?
Daniel estava muito curioso e não conseguia parar de se perguntar acerca de como Teresa apanhara o vírus.
Nas horas seguintes, Daniel e Teresa falaram de tudo e de nada. Quando deram por eles já era tarde e já os seus pais os chamavam.
-Obrigada por me ouvires, Daniel. Eu passo por muita pressão, todos os dias. As pessoas querem que eu seja alguém que não sou e poder desabafar contigo faz-me sentir eu mesma.
Daniel corou.
-Também foi muito bom falar contigo.


- A mãe ficou infetada? Mas ela já está bem, certo?
-Claro que sim! Mas, ouve o resto de história.



Um dia, Daniel encontrou Teresa num estado lastimável que desabafou, entre soluços, que teria de ser internada. Daniel ficou destroçado: agora que tinha criado laços com a sua amiga, seriam separados. E se Teresa não voltasse?
Nas semanas que se seguiram, Daniel sentia-se cada vez mais preocupado. Não tinha notícias da amiga desde que esta saíra de casa e não via a luz ao fundo do túnel.
 Numa manhã, Daniel dormia quando ouviu Teresa chamá-lo com uma grande euforia. Desceu as escadas, ainda de pijama, e correu porta fora.
-Daniel, estou curada!- apesar da máscara, Daniel conseguia perceber que Teresa sorria.- Apanhei um grande susto! Este vírus não escolhe idades. Vou passar a ter muito mais cuidado e seguir o teu exemplo. Aprendi muito contigo.
-Eu também aprendi muito contigo, Teresa. Percebi que tenho de me valorizar mais e deixar de sentir insegurança.


-Tu e a mãe têm uma relação muito bonita. - disse Filipe.
-Agora está na hora da cama. Amanhã temos um longo dia para caçar dragões.
-Dragões?- Teresa apareceu, curiosa, à porta do quarto dos dois irmãos.- Quem é que vai caçar dragões?
-O Filipe. Ele não sabe que os dragões só existem nos contos de fadas. Quando eu for grande, quero ser médica para curar pessoas como a mamã.
Teresa e Daniel deram um beijinho de boas noites aos filhos e saíram do quarto.
-Tu contaste-lhes a nossa história?- perguntou Teresa, divertida.
-Achei que estava na altura.- Daniel sorriu.
-Pode ser que assim aprendam a proteger-se a si e aos outros.
Ana Silva, 11ºAno
Diogo Gil, 11ºAno
Maria Inês Santos, 11ºAno

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