O Blogue das Bibliotecas Escolares / Centro de Recursos Educativos do Agrupamento de Escolas Alfredo da Silva surge com o objetivo de manter informada toda a comunidade educativa sobre os recursos que se vão adquirindo, as atividades que se realizam e outros assuntos considerados de interesse.
Lançamos, desde já, um desafio aos nossos visitantes no sentido de nos fazerem chegar as críticas e as sugestões que considerem pertinentes para que possamos melhorar este serviço indo ao encontro das expetativas e interesses de todos.


quarta-feira, junho 03, 2020

Uma história em tempos de Covid - 19


Invasão de um vírus 

INTRODUÇÃO

           
Vou ser sincera com todos vocês. Trabalhar como fotógrafa é fantástico….  O curso vai bem e adoro….
Também já consegui arranjar emprego e ter um ordenado. Já dá para pagar as propinas do curso. E o dinheiro que devo à minha melhor amiga Marta.
Os meus pais estão longe. Eles estão sempre a mandar-me dinheiro. Mas eu quero ser independente. Não que não goste deles, mas já fizeram tanto por mim que acho que é tempo de eles descansarem e eu começar a trabalhar. Tenho 22 anos. Está mais que na idade…
De manhã uma estudante e à tarde uma trabalhadora. Parece a história de uma agente secreta…. Hahahhaha.
Enfim… Esta é a minha vida. Pelo menos era…. Só que eu não esperava que as coisas fossem mudar.
  
                                  CAPÍTULO 1

-Levanta-te, Marta!- gritava eu
Tinha a sorte de tê-la como melhor amiga, mas ela passava a noite em festas e depois para acordar, ela tinha a sorte de me ter a mim. Somos colegas de quarto.  Foi assim que a nossa amizade começou.
Só que ela está no curso para fotografar animais. Eu quero fotografar um pouco de tudo. Pessoas, animais, paisagens, objetos… Ela quer ir para a National Geographic. Eu ainda não sei bem.
-Tou a ir. - resmungou ela.
-Tens de te despachar se queres apanhar os balneários vazios. A menos que queiras tomar banho com metade da escola lá.
-OK, ok- disse ela, levantando-se.
Andamos pelo corredor dos quartos até ao andar de baixo para avançar até aos balneários. Quando lá chegamos estava vazio.
-Vês? Tanta pressa para nada -queixou-se ela.
-Pois, mas daqui a nada está cheio.
Ela deitou-me a língua de fora e eu limitei-me a ignorá-la. Depois de nos despacharmos, fomos para o bar e tomámos o nosso café.
-Sara, olha ali.
-O quê?
Ela virou a minha cara na direção que o seu dedo apontava. Revirei os olhos…
-A sério…-disse eu
Rafael. Foi para quem ela me mandou olhar. Um rapaz insuportável. E sei disso porque os meus pais e os dele são “amigos muito chegados”. Desde que entrou na minha vida não fez mais nada se não chatear-me.
-Vá lá. Não podes negar que gostas dele.
-Gostar?! Ele irrita-me só de saber que ele existe.
-EAHH para que é esse exagero?
- Quem me dera que fosse.- disse, levantando-me- vamos para a aula que já está na hora.
Ela seguiu-me. Ela tem 23 anos mas quando o assunto é rapaz parece uma adolescente de 16 anos.

....

Senti o seu olhar durante a aula toda. Por amor de Deus. Ele irrita-me. E depois que a Marta lhe foi dizer que eu gostava dele, ainda ficou pior. Desculpei-a disso, fazendo-a prometer que ela parava com aquelas coisas. Infelizmente ela fez isso durante um mês.
-Quero grupos de quatro-disse o professor de artes.
Juntei-me à Marta e à Lara. A Lara é uma amiga nossa que dorme no quarto ao lado do nosso. A sua colega de quarto foi assassinada uma semana antes de a escola começar. É uma pena. Pelo menos elas não se conheciam. Se se conhecessem era pior.
Se isso me acontecesse com a Marta eu nem sei o que faria. Mesmo que eu o diga poucas vezes, ela é importante para mim. Com a sua maneira e o seu jeito.
Enfim. No final de a turma se dividir havia “alguém” que não tinha grupo.
-É o destino - comentou logo a Marta
-CALA-TE!
-Estou a ver que ela continua com essas coisas de tu e do Rafael virem a namorar-disse a Lara- Marta, deixa-a em paz. Mais tarde ou mais cedo ela vai acabar por admitir isso a si mesma-riu-se a Lara
-Tu também?!-quase gritei.
Ele aproximou-se de nós.  A Marta sentou-se logo ao lado da Lara. Meu Deus. Ele sentou-se ao meu lado e lançou-me aquele olhar frio e gelado.
-Muito bem. Visto que os grupos já estão formados, eu vou indicar-vos o trabalho  a fazer. Eu quero que vocês tirem uma foto à vossa escolha. Uma para cada dois do grupo.  Mas….- detesto quando o professor começa com os seus “mas”- devem ter em conta que um desses dois vai ter que pintar numa tela essa fotografia.
-Professor, podemos pintar isso e só depois tirar a foto?-perguntou o Rafael
-Claro.
Ele olhou para mim e sorriu. Revirei-lhe os olhos e olhei para a Marta.
-Desculpa, eu vou ficar com a Lara.-disse ela encolhendo os ombros.
 Vi-as a entreolharam-se e a rirem-se. É para isto que servem as amigas? O toque soou nos nossos ouvidos e o professor disse:
-A segunda hora é toda vossa. Podem discutir o que querem fazer e quem sabe começarem.
Saímos. Elas vieram ter comigo
-Boa sorte, amiga…-disseram em coro antes de se irem embora aos risos.
Quando me virei, vi-o a ir não sei para onde.
-Onde é que vais?-perguntei correndo até ele.
-Onde for…
-Sabes que temos de ir fazer o trabalho, certo?
-Sei. E também já sei o que vou fotografar e pintar.
-Somos um par. Onde é que eu entro nesse teu plano?
-Na foto e na pintura.
-Vais ter de te explicar melhor.
-Para de fazer perguntas e vem comigo.
IRRITANTE! Estou capaz de matar aquelas duas! Vamos ver como é que isto vai correr.
Não demorou muito para chegarmos a uma florista. Ele comprou uma rosa vermelha.
-Tens lençóis brancos?
-Que raio de pergunta é essa?
-Tens ou não.
-Sim.
-Vamos para o teu quarto.
Apeteceu-me perguntar-lhe o que raio é que lhe estava a passar pela cabeça. Mas já sabia que ele não me ia responder. Perguntasse o que eu perguntasse. Só se ia queixar e mais nada.
            Chegámos ao meu quarto. Dei-lhe o lençol branco. Ele abriu a minha cama e arrancou-lhe os lençóis exceto o do colchão.
            -Agora despe-te e cobre-te com o lençol branco que me deste.
            Ele virou-se de costas. Retirei todas as minhas roupas e envolvi-me no pano branco gigante…
-Já está.
            Ele virou-se e ficou a observar-me.
-Agora deita-te na cama.
Engoli em seco e obedeci-lhe. Odeio. Mas ninguém sabe o porquê. Bem vou deixá-lo bem claro aqui mesmo. Odeio-o pela maneira como o meu corpo lhe reage e como lhe obedece. Pelo poder que ele tem sobre mim e pelo modo como ele se aproveita disso.
-E agora-suspirei
-Deixa comigo.
Ele colocou-me na seguinte posição: de barriga para baixo, uma perna dobrada, a outra esticada, um braço debaixo do peito e o outro dobrado a agarrar a rosa, como se a estivesse a cheirar, com a cabeça deitada na almofada e o cabelo espalhado nesta mesma.
-Fica assim que eu já volto.
Uns dez minutos depois talvez, ele voltou a entrar e trazia a câmara, as tintas, a tela e os pincéis.
-Vamos começar.
-Vai demorar muito.
-Não sei ao certo. Porquê?
-É que eu tenho que ir trabalhar às 17h.
-São 10:30h. 5h e 30min para mim chega.
-Então e almoço? Não comes é?!
-Depois tratamos de comer-disse ele piscando-me o olho

Corei e calei-me. O tempo foi passando… A maneira como ele me olhava e observava cada curva minha por baixo daquele lençol era como se ele  me desejasse…. Talvez elas até tivessem razão….
                                                               

-Estás um bocado atrasada no teu primeiro dia-disse a gerente do café
-Desculpe. Estava a acabar um trabalho para o curso.
-Ok. Mas tens de te começar a gerir senão vais sempre chegar atrasada.
-Não volta a acontecer. Prometo.
-OK. Agora vai atender os clientes.
Vesti o avental e atei o cabelo. Servi toda a gente. Entretanto chegaram as minhas “amigas”.
-Então como correu o trabalho?- perguntou a Marta
-Bem…
-Deve ter mesmo corrido. O professor não parou de elogiar o vosso trabalho.-comentou a Lara.
-A sério?
-Sim. Acho que até vai pendurar lá na vitrine do corredor principal.-disse a Lara
-Ia…-disse a Marta-o Rafael não deixou.
-Porquê?!
-Ele disse que primeiro tinham de te perguntar devido à tua “nudez”. E porque ele disse que te queria dá-lo como presente. E por falar nele…-disse a Marta.
Corei quando ele entrou no café. Foi-se sentar numa das mesas. Saí do balcão ignorando os comentários das minhas amigas e fui até à mesa dele.
-Vais desejar alguma coisa?
-Podes-me trazer um descafeinado.
-OK.
Fui buscá-lo. Por favor não sejas frio comigo. Se não fores talvez te possa deixar de odiar e admitir que adoro o controlo que tens sobre mim…
-Aqui está.- disse entregando-o e ficando ali especada.
-Não quero mais nada, obrigado.
OK. Ele não gosta mesmo de mim. Odeia-me e eu também o odeio.
-Sara?
Voltei-me para ele
-Sim?
-Quanto é?
-0.80 cêntimos…
Pensei que ele ia dizer qualquer coisa de jeito. Isso é o que dá ter muitas esperanças.
À noite não conseguia dormir. Passei metade do tempo a pensar nele. E quando finalmente admiti a mim mesma que gosto dele e que ia lutar por ele, adormeci….


                                              CAPÍTULO 2


Passou uma semana. O quadro ficou no meu quarto. Mas no meu quarto mesmo. Em casa dos meus pais. Parece que agora anda por aí um vírus e que por isso decidiram fechar as escolas e todos os pequenos comércios, incluindo o café onde eu trabalhava ainda há nem uma semana.
Os meus pais saem para ir trabalhar. O meu pai é polícia e a minha mãe é médica. Pelo que eles me dizem isto é mais perigoso do que parece. Com medo de me infetarem até nem se aproximam de mim.
Acho que até estão a pensar em pedir aos Antunes para me deixarem lá viver enquanto isto estiver assim. Pois para vocês saberem, os Antunes são os pais do Rafael. Rafael Antunes é o nome dele.
Claro que como eles eram “amigos muito próximos” aceitaram.
Amanhã vou ficar em casa dele. Ainda por cima o “meu” quarto fica mesmo ao lado do dele. Sinceramente não sei se isso é bom ou se é mau. Acho que depende do ponto de vista do meu coração e da minha mente. E suponho que não seja preciso dizer que eles não estão lá muito de acordo.
Vamos ver como é que vai ser.
Levantei-me da cama. A sweat tapava-me o rabo e os calções que eu tinha vestidos por baixo. Os meus pais já foram trabalhar. Tirei uma caneca de café e fui ver a rua através da janela da sala.
Afastei o cortinado e vi-o a largar a toalha. O seu corpo nu era como mármore. Intacto, lindo, suave e brilhante. Ele vestiu os boxers e apanhou-me a olhar para ele através da janela.
Fechei o cortinado. Uns minutos depois ouvi o toque de mensagem do meu telemóvel. Era uma mensagem dele.
            “E se viesses cá a casa?”
            “É melhor não” respondi-lhe
            Não tardou para que ouvisse a campainha de minha casa a tocar. Fui abrir a porta.
            -O que é que fazes aqui?
            - Então, já que não vieste até minha casa eu vim até à tua…
         -Tu és maluco, só pode. Não podes entrar nem andar na rua. Ou já te esqueceste do vírus? Vai-te embora!
- Oh, vá lá. Vais dizer que não me queres em tua casa?
Corei. “SÊ RACIONAL” pensei
-Não. Agora vai para tua casa.- disse fechando-lhe a porta na cara.
Quando estava a ir para a cozinha ouvi-o a falar do lado de fora da porta
-Como queiras. Amanhã vais para minha casa de uma maneira ou de outra. Vamos ver se conseguimos manter o distanciamento social como eles dizem para manter.
Vi-o caminhar para sua casa. Eu vou conseguir. Mas por precaução talvez seja melhor perguntar aos meus pais se não posso antes ficar cá em casa.

Escusado será dizer que os meus pais não concordaram com isso. Até me fizeram vir para aqui mais cedo para dormir aqui e não ser obrigada a “acordar mais cedo”. Acho que também não preciso de dizer que ele não para de me provocar.
Não trouxe muita coisa. Roupa, escova de dentes e pente, os meus livros, carregador, telemóvel e o quadro que ele me deu. É incrível como é que alguém tão frio pode captar tão bem uma imagem e reproduzi-la com as suas próprias mãos apenas necessitando de pincéis, tintas e uma tela.
Eu sempre pensei que esse tipo de arte fosse ridículo e sempre gostei mais da arte da fotografia, mas este quadro fez-me começar a pensar exatamente o contrário.
Deitei-me na cama. Observava o teto. Não conseguia dormir e também não estava com vontade de fazer o que quer que fosse. Fui buscar o telemóvel e marquei o número da Marta.
            “-Oi Marta. Espero não te ter acordado.
            -Na boa. Também ainda não estava a dormir.
              -Nem eu. Não consigo.
            -Imagino porque será.
            -Não comeces por favor. Tenho saudades da escola. Ainda só estamos há uma semana em casa e já estou farta disto.
            -Eu não estou assim tão farta. Acho que o que me safa é o facto de ir passear o meu cão à rua. Senão, acho que já estava a dar em maluca.
            -Pois. Só que eu não tenho cão nem cadela. Só um idiota a chatear-me e ainda agora me mudei para aqui.
            -Pois é. Já me tinha esquecido disso.
            -Pois, pois. Como se tu te fosses esquecer disso.
            -Ok talvez não me tenha esquecido. Ahahah
            -Não mete muita graça. Ele é irritante e convencido. Sinceramente não sei o que é que as raparigas da escola veem nele.
            -Talvez tu saibas isso porque o conheces há mais tempo. Nunca te disseram que o fruto proibido é o mais apetecido?
            -Falas como se tivesses conhecimento na matéria.
            -Não duvides disso, Sarinha.
            -Meu deus! Ahahah
            -Estava a pedi-las. Olha eu tenho de ir dormir senão daqui a nada os meus pais vêm para aqui reclamar que já está na hora de dormir e eu não largo o telemóvel.
            -Eu nunca tive problemas desses. Bem, boa noite então, Marta.
            -Boa noite, Sara.”
            Desliguei a chamada. Fui pôr o telemóvel em cima da secretária e depois acendi a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira, para ler mais um pouco do meu livro.
            De repente a porta do quarto abriu-se.
            -Queres o quê a esta hora da noite?- perguntei largando o livro em cima da cama e olhando para ele
            -Vinha saber com quem estavas ao telefone.
            -E porque é que eu te haveria de te dizer isso?! E já agora podias ter batido à porta. Imagina que eu estava despida?!
           -Bem, não seria assim tão mau. E depois, eu estou na minha casa porque é que haveria de bater à porta?
-Sabes que às vezes és mesmo irritante não sabes?
            -Obrigado. Eu tento.
            Dito isto ele foi-se embora e fechou a porta. Sinceramente tenho pena dos pais dele. A mãe dele é dona de um banco qualquer e o pai é dono de uma empresa. Não admira que o filho seja mimado. Agora estão os dois em teletrabalho e o filho nem sequer tem atenção. Para ser sincera nunca teve.
            Quem costumava dar-lhe atenção era eu a ele e ele a mim. Só que ele começou a ficar frio enquanto eu ficava quente. O oposto um do outro. E acho que isso se deve ao facto de que os meus pais ao menos tentavam estar comigo enquanto que os dele simplesmente o ignoravam.
            Os nossos pais não sabem o que aconteceu entre nós porque dizem que é muito estranho duas pessoas que eram melhores amigos começarem a se odiar.
            Só que nem tudo é perfeito. E nossa amizade também nunca mais foi. Eles acham que agora que vamos estar juntos por causa dos coronavírus que talvez nós recuperemos a nossa amizade. Acho que prefiro conhecer o Diabo a ser amiga dele.


            A noite foi agitada. E o facto de o Rafael me acordar aos gritos e de me despejar um copo de água fria na cabeça também não ajudou. Desatei aos gritos com ele e corri atrás dele pela casa de pijama e com uma garrafa de gelo para lhe atirar para cima.
            Os pais dele nem sequer disseram nada quando nos viram. Foram para os escritórios trabalhar e mais nada. Depois de me acalmar fui me secar e fui fazer o almoço.
            Peguei num prato enchi-o com comida e fui para o quarto.
            -Então e almoço para mim?- perguntou ele
            -Está lá feito. É só pegares num prato e servires-te. Não custa nada.
         Se ele pensa que só porque os pais lhes fazem as vontadinhas todas ele que não pense que eu também vou fazer. Estás muito enganado, amiguinho.
            Depois de comer, fui lavar o meu prato e fui fazer os trabalhos que os professores mandaram.
-Vou sair. Queres vir?
-Não podes sair. É perigoso. E é proibido. A menos que queiras ficar infetado, claro, ou que queiras ser apanhado pela polícia.
-Eu não vou muito longe. Vou só apanhar ar até ao fundo da rua e depois volto.
-Boa viagem sozinho então.
Alguns minutos depois ouvi a porta da rua a bater.  “Deus te proteja” pensei.
Recebi uma mensagem do meu pai. Dizia que quando ele acabasse o trabalho ia me ligar porque tinha uma coisa importante para me dizer.
Claro que se estivéssemos numa época normal eu ficaria um bocadinho estressada. Mas visto que estamos numa época de pandemia, não consegui fazer muito mais por causa do stress. Pelo menos até que ele me ligasse.
E claro para piorar as coisas, para quem ia só até ao fundo da rua e voltar estava a demorar muito tempo. Eu só fico admirada como é que depois de tudo o que se passou eu continuo a preocupar-me com ele.
Eram 10 da noite quando o meu pai ligou.
-Estou? Pai? O que é que se passa?” -não consegui esconder a preocupação.
-Filha calma. Preciso que fiques calma.
-Pai diz logo!
-Tu és uma rapariga inteligente e aposto que a gravidade desta pandemia não te passou ao lado de certeza…
-Pai?
-Filha, a tua mãe... Ela foi convocada para tratar de doente infetados pelo COVID-19. Infelizmente, apesar de todas as proteções que ela usava, o seu corpo contraiu o vírus e está agora internada  nos cuidados intensivos.
-MÃE….”
Não consegui ouvir mais nada do que ele me dizia. A minha mãe estava infetada. Estava em estado grave. A MINHA MÃE!
“PORQUÊ ELA, DEUS? QUE MAL EU FIZ PARA MERECER ISSO?”. As lágrimas brotaram dos meus olhos e percorriam com velocidade no meu rosto. Para melhorar a situação, o Rafael chegou a casa.
-O que é que se passa?-perguntou ele
-Para de fingir que te importas se faz favor. Isso só me dá mais nojo de ti, idiota!
Corri escadas acima. Entrei no quarto… Isto não pode ser verdade. É só um pesadelo do qual eu vou acabar por acordar….



                                                 CAPÍTULO 3

Dois meses. Há dois meses que estou em casa. A minha mãe graças a Deus foi forte e combateu o vírus. Foi a sétima pessoa recuperada deste maldito vírus. Ele infetou tudo. Desde as pessoas aos media. Parece que temos a nova estrela do ano. E eu que pensava que 2020 ia ser um ano em grande. Eu e toda a gente. Mas está a ser. Um ano em grande cheio de infetados, mortos e crises.
O meu grande conforto tem sido a Marta, que todos os dias de noite me liga ou eu lhe ligo a ela e passamos horas a falar até de madrugada. É porque cá em casa eu pareço invisível para dois e um brinquedo para o terceiro.
Não faço mais nada se não discutir com ele. Está sempre a fazer de propósito para me chatear e está sempre a interromper as minhas aulas.
Já falei com os meus pais, mas eles dizem que quando isto acabar eles me vão compensar pelo esforço que eu tenho feito. Isto é mais que um esforço. É tipo missão impossível.
Mas eles deveriam estar gratos por eu ter um coração de manteiga porque disse que eles não precisavam de fazer nada para me compensar porque eu sabia que eles só estavam a zelar pelo meu bem.
O Rafael continua a levar isto na brincadeira e continua a sair de casa. Ele e os amigos dele, que só fazem porcaria. Talvez os pais dele o ignorem por estarem arrependidos e desiludidos com o filho que “criaram”. Ainda assim isso não é desculpa para “deixar” assim um filho.
Estou em aula. Aula de artes. A mesma aula em que ele pintou aquele quadro e que o professor, mesmo passado dois meses, não deixa de dizer que está orgulhoso do nosso trabalho.
Está sempre a dizer-me que eu tive muita coragem para me deixar ser pintada assim. Se ele soubesse….
-Sara?
-Sim, professor?
-Quem é o autor que está aqui desenhado nesta imagem pintada pela sua colega Lara?
-Eu penso que seja um retrato do Leonardo de Vinci.
-Correto.
O professor continuou a falar. Ouvi a campainha de lá de baixo a tocar repetidamente. Tirei a câmera e fui lá abaixo. Abri a porta.
-Estás atrasado para a videoaula.
-Isso é problema meu.
-Como queiras. Não te esqueças de te desinfetar e de lavar as mãos antes de tocares no que quer que seja. Já que não obedeces às autoridades e que não usas máscara e luvas, ao menos desinfeta-te com o álcool.
-Para quê? Isso das regras é ridículo. Aposto que muita gente o faz e no entanto fica infetada na mesma.
-Talvez mas se o fizeres já ajuda a que haja menos probabilidades de também ficares infetado.
-Porquê? Não me vou desinfetar e não vou fazer nada porque eu sou livre de fazer o que eu quiser.
-Como queiras. Mas afasta-te de mim.
-E porque haveria eu de fazer isso?-disse ele aproximando-se cada vez mais de mim até que os nossos narizes se tocassem.
-Porque eu tenho asma, sou doente de risco e não quero ficar infetada ao contrário de ti pelos vistos. Agora se não te importas tenho coisas mais importantes a fazer do que ficar aqui colada a um idiota que tem a mania.
Afastei-me dele. Quando cheguei ao quarto passei-me por álcool e voltei para a aula.
.....
À noite quando eu estava deitada na cama muito bem a falar ao telefone com a Marta, ele entrou pelo quarto adentro e perguntou:
-Vai haver uma festa nas docas. Queres vir?
-E se a polícia vos apanha?

-Isso é a parte mais divertida. Fugir da bófia. E se formos apanhados nem sequer somos presos porque não há nenhuma lei que diga que podem prender quem não cumprir o estado de emergência.
-Não, obrigado. Já gastei as minhas energias do dia a aturar-te. Não preciso de mais preocupações para a minha doce e tranquila vidinha.
-A isso é que eu chamo ironia. Bem ,eu vou andando. Se mudares de ideias aparece por lá.
-Não. E não é não.
-OK, tu é que perdes. Vai ser uma festa em grande….
Ele saiu do quarto e saiu de casa. O meu olhar desenhado naquele quadro observava-me agora. Era o olhar de uma menina frágil que era desejada pela pessoa que a irrita, mas que ela também deseja. Um olhar misterioso e confuso. Triste e alegre ao mesmo tempo. Fui à janela.
-JÁ AGORA LEVA CONTIGO O TEU MALDITO QUADRO ESTÚPIDO!-gritei atirando a tela pela janela que caiu mesmo em cima da cabeça dele e depois caiu no chão.
Ele agarrou nele e levou-o debaixo do braço. Não dava. Era um quadro lindo mas ao mesmo tempo perturbante. Como se ele quisesse que cada vez que eu olhasse para ele me lembrasse que não importa o quanto eu o odeio, o quanto ele me irrita ou o quanto ele me chateia, eu vou sempre desejá-lo daquela maneira que me enoja mas que me vence quando ele está demasiado próximo.
Mas isso não é verdade. Odeio-o com todo o meu ser e já nada me tira isso da cabeça, da mente ou do coração. E graças a Deus, a Marta já percebeu isso de uma vez por todas e já nem sequer fala dele comigo.
Ainda bem porque já é suficiente mau ter que vê-lo o dia inteiro, quanto mais falar dele.
Estava carregadinha de sono por isso fui dormir. Esta era uma daquelas raras noites em que eu conseguira adormecer.
...
      

 Não paravam de tocar à campainha. Eram 3 da manhã. “Será que aquele estúpido não levou chaves?” Esperar que os pais dele fossem abrir era escusado porque eles dormem que nem pedras.
Levantei-me, enrolei-me no robe e desci as escadas. Abri a porta ainda meio ensonada.
Fui surpreendida por um polícia que agarrava no Rafael
-Desculpa acordar-te, Sara. Mas eu e os meus colegas recebemos uma denúncia de alguém a dizer que havia um grupo de marmanjos nas docas a dar uma festa. Só nunca pensei que um desses marmanjos de meia tigela fosse o nosso vizinho e amigo Rafael.
Ele baixou a cabeça e olhou para mim
-Eu avisei-te.-disse agarrando-o por um braço e puxando-o para dentro de casa.
-Desta vez tiveste sorte que eu estava lá, Rafael. Da próxima vez podes não ter tanta sorte. Podes ter de passar uma noite na cadeia.
-Isto é ridículo-disse ele soltando-se da minha mão e indo para o quarto dele.
-Onde é que estão os pais dele?-perguntou o meu pai
-A dormir.
-Querida, eu não quero ser chato nem te pedir muita coisa mas toma conta dele se faz favor.
-Eu trato dele e lido com ele como posso, pai. Eu estou sempre a avisá-lo do perigo disto, mas ele não liga nenhuma.
-Ele deve ser daqueles miúdos que só aprende quando apanha um susto.
-Eu acho que nem assim, pai. Ele é muito frio. Nem sei como é que ele ainda não apanhou uma hipotermia.
-Eu também era assim filha. Mas a tua mãe ajudou-me a aquecer.
-Pois mas a mim parece-me que eu não vou ser essa pessoa na vida dele.
-Tu é que sabes. Agora vou trabalhar. Adeus, filha.
-Adeus pai…

Foi estranho ver o meu pai de luvas, viseira e máscara. Mas é assim que tem de ser.
Isto está cada vez pior e eu não consigo lidar com o Rafael. Isso devia ser tarefa dos pais dele. Se ele ficou mimado a culpa é deles e agora eu é que tenho de aguentar com ele...
Voltei para o quarto e encontrei-o lá. Respirei fundo e disse:
-O que é que fazes aqui?
-Estou à procura daquele frasquinho que tu tens com álcool. Podes me emprestar?
-Claro-disse, perplexa pela atitude dele
Mas isso durou pouco tempo porque ele agarrou no frasco e despejou o líquido que estava lá dentro pela janela fora.
-Mas tu estás-te a passar ou quê?!
Tirei-lhe o frasco da mão agora vazio.
-Apeteceu-me...
-Apeteceu-te?! Sabes o que é que também me apetece? Dar-te uma chapada na cara. Ou um soco. És tão idiota que não percebes que com essa atitude só estás a afastar as pessoas de ti. Não te queres proteger? Tudo bem. Problema teu. Agora eu não sou nenhuma criança e tenho a noção do que está a acontecer. Há milhares de pessoas infetadas, outros tantos milhares de mortos e o número de recuperados está a aumentar mas não é suficiente para esquecer o que está a acontecer. Se toda a gente fosse como tu, então acho que a raça humana já tinha acabado. Mas é por as pessoas não serem idiotas como tu que elas estão a proteger-se.
Ele começou a rir-se
-Pois mete muita piada, não é?! Eu para aqui a tentar ver se tu ganhas o mínimo do juízo e tu ris-te e gozas como se isto fosse uma brincadeira.
-Ohhh não fiques estressada. Deixa-me tirar-te esse estresse…
Eu sabia a intenção dele. Mas não. NUNCA!
-Nem penses se alguém me estressa és tu! E sabes que o vírus também se pode pegar através das relações sexuais? Foi um estudo realizado recentemente por cientistas.
E mesmo que não se pegasse eu precisava ser tão idiota como tu para me voltar a envolver contigo por isso vê se tiras o cavalinho da chuva.
Ele saiu do quarto e foi para o dele. Com isto tudo até me esqueci que eu estava ao telefone com a Marta
“-Marta estás aí?
-Yap
-Ouviste a conversa toda?
-Cada letrinha...
-Desculpa.
-Sem problema. Se calhar é melhor irmos dormir. Já é tarde.
-Tens razão. Xau, Marta.
-Xau, Sara….
Desta vez foi ela quem desligou. Quase de certeza que ela percebeu a tensão que estava naquela casa. Pelo menos entre dois dos membros daquela casa.
Eu só queria ter descanso um dia que fosse. Mas parece que está difícil.


                                                       CAPÍTULO 4

O número de infetados e  de mortos é cada vez maior. Apesar de os números do dia a dia terem vindo a baixar, os números continuam altos. Agora o Governo quer começar a abrir os estabelecimentos de pequenas dimensões. Não sou especialista nisto, mas acho que ainda é muito cedo para isso.
Enfim. Quem sou eu numa sociedade tão grande que abrange agora o mundo inteiro? É que o COVID-19 não quer saber se é pobre se é rico, humilde ou mentiroso. Ele ataca todos por igual.
O Rafael já me atirou à cara que eu estou mais preocupada com isto por causa dos meus pais estarem a trabalhar. Em pequena parte talvez seja verdade mas em grande parte não passa de um comentário ofensivo que ele disse para me chatear.
Existe uma pergunta na minha mente que eu lhe quero fazer. Quer dizer, existem muitas mas acho que esta é a mais fácil de perguntar e obter resposta.
Sem mais demoras entrei no quarto dele. Ele estava sentado na cama a jogar videojogos.
Olhou para mim e disse:
-Podias ter batido à porta…
-Porque haveria eu de fazer isso se não o fazem comigo-disse eu imitando  a sua voz
-O que é que queres?
-Quero saber o que é que fizeste ao quadro que tu fizeste…
-Queres saber? - perguntou fazendo aquele sorriso cínico - na festa da docas estava frio e como precisavam de alguma coisa para reatar a fogueira eu dei-lhes o quadro. Olha que ficou quentinho. Mas depois chegou o teu papá e apagou a fogueira.
-Bem fez ele-disse eu e foi me embora do quarto dele.
Ele é que perdeu o seu tempo e o seu trabalho. Isso a mim só me aliviou a alma.

Como não tinha nada para fazer fui ver as notícias e ver que informações novas os jornalistas me tinham para dar.
Parece que isso de abrir as lojas pequenas vai mesmo acontecer. É também querem abrir as creches e a escola para 11° e 12° ano por causa dos exames.
Com que então vai mesmo acontecer. E o estado de emergência também vai acabar. O país vai passar a estar no estado de calamidade. E a partir de amanhã quem não usar máscara na rua pode apanhar a multa de 120 a 350€.
Os pais do Rafael podem não ligar muito ao filho mas se ele os "obrigar" a pagar uma multa, mesmo que seja baixinha para eles, acho que são bem capazes de se passar.
Ainda bem que eu já tenho máscaras, luvas e mais desinfetante (sem lembrar daquele que o Rafael deitou fora).
Seja como for, os meus pais querem que eu continue em casa e só se for extremamente necessário é que saio.
Eles já se preocupariam comigo não sendo eu doente asmática. Então sendo como sou e estando nos grupos de risco então ainda mais se preocupam.
Ouvi o meu telemóvel a tocar e fui lá acima buscá-lo. No ecrã podia ver o nome da Marta.
"-Estou. Marta? Pensei que só me ligavas à noite."
Ouvi a minha melhor amiga a soluçar e assustei-me
"-Marta, o que é que aconteceu?
-A Lara….
-O que é que tem a Lara?
-Ela… ela ficou infetada…
-Como é que sabes?
-Os pais dela ligaram-me… Ela não aguentou…
-Não…. não pode….
-Sim… Desculpa estar-te a dizer isto por chamada, mas agora não é possível fazê-lo de outra forma.
-Não faz mal. Ao menos ligaste a dizer… E os pais dela como estão?
-Mal. Eu até fiquei admirada de eles me terem ligado a informar sobre isso.
-Pois, eu também ficaria.
-Bem, eu só te queria contar isto porque tu também tens o direito de saber e porque os pais dela me pediram porque eles não têm o teu número.
-OK, Marta. À noite falamos…
-Adeus Sara. "
Não consegui conter as lágrimas. Enquanto estava em chamada tudo bem para não deixar a Marta ainda mais em baixo.
O Rafael apareceu e tinha de deixar o seu típico comentário ofensivo.
-Também estás sempre a chorar.
-Pois e tu nunca consegues estar calado. Visto que não tens qualquer intenção de saber o que é que aconteceu então vai-te embora. Vai passear faz como quiseres, mas por um segundo deixa-me em paz. Estou cansada de ti. Nem me vou dar ao trabalho de te explicar o que se passa ou de te responder porque tu só te preocupas contigo. Sabes que mais. não te preocupes não precisas de sair do quarto porque afinal estás na tua casa. Então eu trato de me ir embora.
Saí do quarto e fui para a sala. Acendi a televisão e tentei descansar um pouco no sofá. Talvez me conseguisse libertar de algum estresse.
As coisas seriam bem melhor se não tivesse de estar a viver com ele.
Este maldito vírus está-me a estragar a vida toda… Quando é que isto vai acabar. Alguém me diga! 

                                                       CAPÍTULO 5

Ok, aqui vai uma pequena atualização. Digamos que as coisas correram melhor do que eu pensava. O número de infetados de 24 em 24h tem baixado e o número de mortes também.
Agora vamos para a segunda fase de desconfinamento. Vamos ver como é que as coisas vão correr.
Liguei para a minha mãe.
"-Sara. Olá, filha. Como é que estás ?
-Mais ou menos mãe.
-Como assim, filha?
-Tenho me sentido cansada. Já para não falar que não consigo respirar como deve ser.
-Filha, fecha-te no quarto. Não contactes com ninguém. Vou pedir a algum colega meu para ir até aí a casa.
-Porquê, mãe. É assim tão mau?
-Querida, eu não te quero preocupar. O meu colega explica-te tudo quando chegar aí.
-OK, mãe. "
Bem, mesmo que a ideia da minha mãe fosse não me preocupar, isso acabou por acontecer.
Enfim fiz aquilo que ela me mandou. O seu amigo certamente não demoraria muito a chegar. Eu só espero que isto não seja nada de mal.
Como já estava a apanhar uma seca liguei à Marta. Ao menos assim não morria de tédio.
"-Olá Marta. Está tudo bem por aí?
-Mais ou menos…
-Então o que é que se passou agora?
-O meu pai lembrou-se agora que se quer separar da minha mãe.
-Pois. Agora passam dias inteiros juntos, já estão fartos um do outro. Isso é muito mau.
-Pois. Mas a minha mãe também nem sequer ficou magoada nem nada. Até está a reagir bem. Pelos vistos ela também já o queria fazer antes da quarentena. Só que não me queriam magoar.
-E tu como é que estás?
-Bem, dentro dos possíveis. Desde que eles se continuem a dar bem por mim está tudo ótimo. Afinal de contas os meus pais já têm idade para ter juízo e tomar conta das suas vidas.
-Pois. Tens sorte. Há muitos casais que se querem divorciar por causa disto e os filhos infelizmente não reagem bem.
-É verdade. E então tu, só ligaste para saber isso ou há alguma novidade.
-Há uma. Mas ainda não foi confirmada e não é nada mesmo nada bom se for confirmado…



O colega da minha mãe chegou uma meia hora depois de eu ter falado com a Marta e de ter desligado o telefone.
Era um médico jovem e bastante simpático até. Entrou no meu quarto e começou a falar comigo.
-Olá Sara. Eu sou o amigo da tua mãe. O meu nome é David. A tua mãe disse-me que és uma rapariga bastante inteligente por isso deves saber o que se passa, certo?
-Sim. Os sintomas que eu tenho são do… do vírus não são?
-Exatamente. Mas não tenhas medo. Também são sintomas das alergias da Primavera. Preciso de te tirar sangue para as análises.
-OK….
Ele foi carinhoso e cuidadoso para não me magoar. Era de um namorado assim que eu precisava. Alguém que se preocupe comigo e que não me esteja sempre a deitar abaixo.
Quando ele acabou, perguntei-lhe uma coisa.
-As outras pessoas desta casa também podem estar infetadas?
-É provável. Mas há sempre uma pequena probabilidade de não estarem. Vou lhes tirar algum sangue para análises e depois eu aviso a tua mãe para ela te contactar.
-Espere. Talvez eu lhe possa dar o meu número. Assim não precisa de incomodar a minha mãe com o assunto. Se for qualquer coisa de grave eu depois aviso-a.
-Isso é um gesto muito querido da sua parte mas eu prefiro contactar a tua mãe. Só porque ela me pediu e também me avisou de que tu farias qualquer coisa para não a incomodar por causa do seu trabalho.
-É minha mãe. O que é que eu posso fazer? Conhece-me de ginjeira.
Despediu-se de mim com um sorriso doce e quente saiu do quarto.
Agora tudo depende da história que o meu sangue contar…


Depois de uns 10 minutos a discutir com a colega da minha mãe e de dizer vezes sem conta "isto é desnecessário", "nem pense que vou tirar sangue só por causa disto", "porque razão haveria eu de ficar infetado com uma coisa tão minúscula que não passa do ridículo" o homem lá conseguiu tirar-lhe sangue para as análises.
Claro que depois tinha de me vir chatear cá acima e de desrespeitar aquilo que o médico disse acerca de não me visitar enquanto as análises não chegarem.
Entrou de rompante pela porta do quarto.
-Viste-me a lata daquele gajo. Ele também te tirou sangue?
-Sim, Rafael, também tirou…
-Porquê?
-Porque eu tenho os sintomas do vírus.
-Mas tu nem sequer sais de casa.
-Mas tu sais e podes ter apanhado e teres-me pegado tal como também podes ter pegado aos teus pais. Por isso é que ele tirou sangue a todos para análises.
-Isto é…
-"ridículo". Já sabemos que é isso que achas disto.
-O que é que se passa contigo?
-Porque perguntas?
-Normalmente entras logo a matar comigo e a contradizer-me. Agora simplesmente não dizes nada. É um dos sintomas também. Ficar fraca para discutir.
-Não. Chama-se ficar farta de discutir. Não fazemos mais nada se não isso. Quando éramos mais novos não éramos assim. Alguma coisa mudou. Já tentei perceber o quê mas não consigo…
-Agora pareces os nossos pais a falar.
-Talvez eles tenham razão não achas? Gostava que me ajudasses a perceber o que é que aconteceu…. Mas tu não te importas com a nossa amizade. Porque hei de ser eu a importar-me? Só me estressa mais e eu não preciso de mais estresse na minha vida.
Deitei-me de costas para ele. Ele não disse mais nada. Limitou-se a sair do quarto.
Foi mais fácil atirar-lhe à cara o que se estava a passar e o que estava a sentir do que eu pensara.
Liguei ao meu pai. Precisava do conforto dele. Claro que também era bom o conforto da minha mãe, mas como ela está a linha da frente a combater este vírus não a quero incomodar.
É óbvio que o meu pai também está a trabalhar e a ajudar neste combate "frente a frente", mas é mais fácil de ele me atender o telemóvel do que a minha mãe.

Ainda assim, ele não me atendeu. Foi para a caixa do correio. Deixei-lhe uma mensagem de voz. "Pai preciso de falar contigo. Estou a apanhar uma seca e estou preocupada com aquilo que eu posso ter. Queria falar com alguém amigo. A mãe deve estar muito ocupada e não quero estar a chatear a Marta. Ela já tem problemas que chegue para se preocupar. Os pais do Rafael não vão ajudar muito e nem sequer ponho a ideia de ele me ajudar… Quando puderes, liga-me pai… Tenho medo…. "
Como passado algum tempo ele não me disse nada, calculei que se calhar não tinha bateria no telemóvel.
Virei-me de costas para a cama e fiquei a observar o teto. Parecendo de certa forma estranho isso até me ajudou a acalmar de certa forma e a pensar nas coisas e na vida com mais clareza.
 Vou certificar-me de que o faço mais vezes.
Quando estava quase a adormecer, o toque do meu telemóvel soou pelo quarto inteiro e fez eco nos meus ouvidos. Dói-me imenso a cabeça.
Peguei no objeto e atendi
"-Estou?
-Olá. Este é o número da menina Sara?
-É sim. Quem fala?
-Sara, sou eu o colega da tua mãe. A tua mãe deu-me o teu número.
-David?
-Sim, Sara sou eu. Eu queria te avisar que mandei agora uma ambulância para aí agora. Vão te trazer para o hospital.
-O quê?
-As análises chegaram Sara. Estás infetada com o coronavírus. "
Senti o meu coração a parar…

                                                CAPÍTULO 6


Sinto a maca aos saltos por causa dos buracos da estrada. Os paramédicos olham para mim como se eu tivesse uma doença que me possa matar.
Mas por muito que eu tentasse distorcer a verdade e tentasse enganar a minha mente, eu sabia perfeitamente que essa era a pura realidade.  Para acalmar, fiquei a observar o teto da ambulância. Mas não funcionou como da outra vez.
Para ser sincera, nunca me tinha posto no lugar dessa gente. Do sentimento de medo e de obrigação ao mesmo tempo. De sentir que têm de se proteger o país inteiro e ao mesmo tempo cuidar dos seus e de si.
O estresse o dia inteiro deve ser demais. Mas esta gente não é uma gente qualquer. Com orgulho no seu país e pátria.
São pessoas que dão tudo por tudo na linha da frente para ter a certeza de que não falta nada ao nosso povo. São pessoas de coração mole e forte ao mesmo tempo.
Sem medos. Apenas um objetivo. Dar esperança e vida ao seu país. São Portugueses. E isso basta-lhes como razão para darem o seu melhor.
Finalmente, chegamos ao hospital. As enfermeiras que me vieram buscar vinham "cobertas" de plástico. Uma bata, luvas, máscara, viseira e touca.
A proteção é tudo para combater o vírus. Depois em 30 minutos conseguiram isolar-me num quarto internada. Pelo caminho não vi a placa a dizer cuidados intensivos por isso menos mal. É porque não estava assim tão mau como eu pensava.
Depois de instalada, fiquei a observar cada coisa daquele quarto. Separados pela cortina de plástico, havia ali pelo menos umas quatro pessoas a contar comigo.
Sentia-me assustada. Não sei há quanto tempo aquelas pessoas estavam ali. O medo percorreu-me a espinha. Quando observei com mais atenção pude reparar que um dos pacientes que ali estava era uma criança. Um rapazinho com os seus 9 ou 10 anos. O ponto a que isto chegou.
E nós tomamos medidas de precaução. Os países que não o fizeram estão uma lástima em questão de números.  Mas cada país carrega  o seu fardo e o nosso já tem problemas que chegue.
Agora que penso nisso tudo isto começou na China e eu nunca mais ouvi falar dela na televisão. Até admira.
Mas no meio de tantos pensamentos fui interrompida pela entrada do médico na sala. Ele estava igualzinho às enfermeiras que me foram buscar à ambulância e que me trouxeram até aqui.
-Então, Sara? Correu bem a viagem até aqui?
-Sim…
Mesmo estando vestido daquela maneira, ele mantinha uma certa distância de segurança. É normal.
-Diz-me, por acaso os teus sintomas alteraram-se muito desde esta manhã?
-Não. Continuo só cansada e tenho alguma dificuldade em respirar.
-Achas que isso é do estresse e da asma ou não?
- Eu acho que não. Mas você é que é o médico. Diga-me você.
- Bem, eu acho e agora com as análises vou ter a certeza de que o vírus já encontrou o teu ponto fraco e vai começar a atacar aí. Por favor, se começares a não conseguir respirar, não penses que vai passar e chama-me logo.
-Primeiro, desde muito nova que me ensinaram para não pensar isso por causa da asma. E segundo como é que eu o vou chamar? Começo aos gritos?
- Não, Sara. Nesse aparelho aí ao teu lado. Não debaixo do aparelho do batimento cardíaco. Sim, esse mesmo. O botão azul que está aí. É só carregares que a rececionista recebe um alarme em como precisas de ajuda e liga-me logo a avisar. Agora preciso de tirar uma amostra do teu sangue. Posso?
-Claro.

Enquanto ele o fazia com todos os cuidados, fomos falando e esclarecendo todas as dúvidas que eu tinha. No fim, antes de ele sair do quarto, perguntei-lhe uma coisa que me estava a deixar preocupada.
-David?
-Sim, Sara….
-Como é que estão as outras pessoas de lá de casa?
-Os pais do teu amigo não estão infetados. Provavelmente deve-se ao facto de eles estarem pouquíssimo tempo perto de vocês. Já o teu amigo Rafael, ele é daqueles casos a que nós chamamos de transportador ou portador do vírus.
-Como assim?
-O sangue do Rafael tem o vírus, mas o corpo não apresenta sinais de o ter porque o sistema imunitário dele conseguiu evitar que o vírus se apoderasse do seu corpo. No entanto, o vírus continua ativo no seu sangue e corpo e pode infetar qualquer pessoa à sua volta. Infelizmente tu foste uma dessas pessoas.
-Há mais?
-Alguns amigos dele.
-OK. Obrigada.
-Sempre que precisares.
Ele saiu do quarto e foi não sei para onde. Já eu fiquei ali no quarto com aquelas quatro pessoas.
Acho que vou ficar por aqui um bom bocado.


Os dias têm ficado cada vez mais secantes. Para ser sincera já nem sequer sei quanto mais tempo aguento ali. Todos os dias o choro da criança ecoa na minha cabeça devido às dores que tenho.
Agora fiquei a conhecer um pouco mais sobre cada pessoa que se encontrava ali naquele quarto.
Rodrigo, a criança de 9 ou 10 anos tinha ficado infetada devido aos pais, que andavam sempre nos bares e não tiveram o cuidado de se proteger e de proteger também o filho.
Matilde, uma idosa com os seus 83 anos nunca mais saiu de casa desde o início da pandemia. Então para não dar em louca saiu de casa e infelizmente contraiu o vírus.
A Inês era uma jovem empresária que depois de ser expulsa de casa pelo marido, trocada pela amante, foi viver para a rua e que ficou infetada por causa de um empregado numa loja qualquer ali perto que também estava infetado, mas que não sabia.
O mais triste nestas histórias é que todas estas pessoas (OK aqui são só 4 mas não importa) estão "felizes" por estarem aqui. Porque têm atenção, amor, carinho, não são trocadas, maltratadas ou até mesmo abandonadas.
E parecendo que não, isso faz a diferença num coração que se julgava desfeito. Estas pessoas chegaram a um estado tão lastimável que mesmo estando doentes e sabendo que podem morrer, estão felizes.
Isto é uma coisa muito triste de se ouvir ou de se dizer.
E agora que penso nisso o meu caso não é muito diferente. O meu resultado deu positivo porque o estúpido do Rafael fez exatamente o contrário do que as autoridades de saúde pediram e agora eu estou internada num hospital enquanto ele só tem de ficar em casa.
E eu estou feliz porque assim não tenho de o aturar e porque tenho a certeza de que aqui ninguém vai fazer de tudo só para me chatear e para me enervar.
Entretanto a minha mãe apareceu por cá a meio da tarde para ver se estava tudo bem. Eu disse-lhe para ela não se preocupar que eu estava em
boas mãos e que o doutor David era fantástico e que não havia problema nenhum.
Até me deu pena. Os olhos dela, cheios de preocupação e medo. Como se ela pensasse que a culpa é sua por me pôr a viver na casa do Rafael.
Não sei ainda como é a dor de uma mãe, mas eu não quero que a minha passe por outra, outra vez.
É que agora eu tenho 22 anos, mas quando tinha 11 anos eu não era filha única. Tinha um irmão chamado Vicente.
Era de noite e a minha mãe deixou a porta de casa aberta. Estávamos de férias. O meu irmão saiu do quarto durante a noite e foi para a piscina. Ele não sabia nadar….
Foi horrível ver o estado da minha mãe quando deu de caras  na manhã seguinte com o filho dentro da piscina, morto por afogamento.
Por muito que ela negue eu sei que ela se culpa por isso. Mas ela não teve culpa. Ninguém teve. Ninguém sabia que aquilo ia acontecer e ninguém o podia parar ou impedir.
O meu pai também ficou mal, mas ao menos mostrava-o. Não o guardava só para si como a minha mãe. Eu herdei isso da minha mãe, mas ao menos eu trato de ficar feliz e de guardar tudo. Quando já não aguentar mais, explodo, mas evito magoar pessoas. A minha mãe não. Diz que está tudo bem, mas a sua cara e o seu olhar dizem exatamente o contrário.
Eu sei que ela me adora, mas o olhar triste que eu vi na sua cara quando ela me viu deitada numa cama de hospital por estar doente deixou-me de rastos.
Fui acordada dos meus pensamentos por uma voz infantil mas doce.
-Ainda não me disseste o teu nome.
Olhei para o lado e vi a cara do rapazinho virada para mim. Ele fitava-me com aqueles olhos fracos mas queridos.
-Eu sou a Sara.
-Olá, Sara.
- Olá, Rodrigo.
-Sara?
-Sim…
-Se eu te fizer uma pergunta podes ser sincera comigo e não me tentar iludir como as enfermeiras?
-Posso- arrisquei a dizer.
Se for uma verdade muito fria não sei se lhe hei de dizer. Mas eu detesto mentir e talvez ele mereça saber a verdade.
Ele virou-se para cima e ficou a observar o teto. Talvez aquilo também o acalmasse e lhe desse coragem.
-Achas que vamos sobreviver?
Engoli a seco. Um arrepio de frio percorreu-me a espinha e quase que ia tendo um ataque de pânico.
-Eu não te sei responder a isso Rodrigo. Podemo- nos safar mas não há certezas disso.
-Se tivesses a certeza, qual seria o teu último desejo?
-O meu último desejo? Acho que seria que os meus pais fossem felizes porque depois de tudo o que eles fizeram por mim acho que eles merecem. E o teu?
-Dizer aos meus pais que apesar de tudo eu os amo.
Comecei a chorar. Uma criança de 10 anos tem mais mentalidade e mais noção da realidade do que o rapaz  de 22 com o qual eu desperdicei o meu tempo.
-Havemos de nos safar….
-Porque dizes isso?-perguntou ele olhando para mim novamente
-Porque nós merecemos uma vida feliz. E porque nós somos fortes.
-Não sei não… Eu tenho uma bronquite.
- Eu sou asmática. Mas isso não me vai impedir de fazer frente a este vírus e de lutar pela minha vida.
-Deves ser daquelas que não morre facilmente- comentou a Matilde
-Eu concordo com ela. Este vírus não me vence tão facilmente. - disse a Inês.
Em questão de 2 minutos todos estavam dispostos a dar luta ao vírus….

                                           CAPÍTULO 7


-Adeus Rodrigo… Tem cuidado agora… Toma conta de ti…
A Inês e o Rodrigo duas semanas depois da nossa promessa estavam recuperados. A Matilde infelizmente morreu devido a uma paragem cardiorespiratória.
Só faltava eu recuperar também. Ou morrer. Mas pensar positivo foi algo a que me habituei.
Claro que agora nas camas deles, depois de desinfetadas e bem desinfetadas, estavam lá novas pessoas. Mas estas pessoas nem sequer falavam. Eram mal-educadas, frias e pensavam que mandavam ali.
O que vale é que o Doutor David tem muita paciência com os seus pacientes pelo que eu já me apercebi.
Já lhe perguntei se ele sabe como é que as coisas lá em casa com o Rafael vão. Mas ele diz que não sabe e tal. Eu posso ser um bocado lenta a perceber algumas coisas, mas já cá estou há tanto tempo que já percebi que cada vez que eu falo no Rafael ele fica com ciúmes.
Se ele pensa que eu gosto do Rafael então ele está muito enganado. Na verdade, não posso negar que tenho um fraquinho pelo meu médico. Não por ele ser lindo de morrer, mas por ser um anjo de pessoa. É tão querido e faz tanto pelas pessoas.
Quando isto tudo acabar e eu sair daqui vou viver cada segundo da minha vida ao máximo sem medos ou receios. Vou deixar-me levar na onda do dia a dia.
Quem sabe tente a minha sorte com coisas novas. Algo que me tire da rotina. Esta aqui do hospital é que já me faz confusão.
Disseram-me que hoje eu ia ter uma surpresa. Da outra vez foi uma gelatina que eu nem sequer gosto. Espero que desta vez seja alguma coisa de jeito. Nem que seja ao menos comida de que eu goste de preferência.
Mas de qualquer das maneiras estou tão exausta que nem consigo me sentir entusiasmada.  Para além disso estou cheia de dores pelo corpo todo e está difícil de respirar.
Senti-me aflita. Virei-me para carregar no botão azul. Mas tive de me inclinar demasiado e caí no chão. Agarrei-me à cabeça. Senti o meu corpo a necessitar de ar. Estiquei o braço, mas não chegava ao maldito botão.
Arrastei-me pelo chão para mais próximo da máquina e voltei a esticar o braço. Quando estava quase a chegar lá, senti uma dor aguda na barriga. Olhei para lá e vi sangue. Tinha espetada a agulha que devia estar no meu braço a dar-me soro.
“Não desistas” pensei.  Retirei-a e soltei um grito de dor. Agarrei-me à cama e tentei levantar-me de maneira a que me deixasse mesmo em frente ao maldito botão. Como já não tinha forças suficientes para levantar o braço, carreguei no botão com o nariz.
Mas não deu em nada. Segui os cabos com os olhos e vi que estavam desligados da tomada. Quando caí da cama devo ter arrastado os cabos comigo e tê-los desligado sem querer.
Deixei-me cair no chão e fiquei a observar o teto. Com o pouco ar que me sobrava tentei gritar.
-AJUDA! AJUDA!POR FAVOR AJUDEM-ME!
Deixei o meu corpo ir abaixo. Juntei energias. No meu último suspiro e gritei o mais alto que podia.
-DAVID!...
Quando estava a perder a consciência, senti uma corrente de ar de repente nos meus pulmões.
Alguém me pegou ao colo e voltou a colocar-me na cama. Depois tratou-me da ferida da barriga e pôs a agulha no seu devido lugar.
Antes de deixar o meu corpo descansar por causa daquela luta toda, disse-lhe:
-Obrigada….
                                                               …

Acordei e senti o meu corpo como novo. Era quase como se sentisse o ar a atravessar cada célula do meu corpo. Vi a cara do David a olhar para mim.
-Pelos vistos até deu jeito ter gritado em vez de usar o botão azul. Ahahahah
-Pois, mas por favor da próxima vez usa logo o botão. Se eu não tivesse aparecido e se não tivesse ouvido o teu grito nem quero imaginar onde estarias agora.
-Ah não te preocupes com isso. Eu não me deixava ir embora sem primeiro te chatear nem que fosse só um bocadinho….
-Que engraçadinha.  Mas ninguém aqui reparou que estavas aflita?
-Neste quarto mais parece não existir ninguém. E para aturar mal- educados antes de morrer preferia tentar sozinha. Tal como fiz. Só não morri.
-Pois é e ainda bem. Senão, a tua mãe matava-me.
-Ela não mata ninguém. Nem as moscas quanto mais uma pessoa.
-Não sei não. No outro dia ela veio cá e tu estavas a dormir. Disseste o meu nome. Ela veio logo ter comigo a dizer que se eu magoasse a “sua bebê” que a minha vida tinha acabado.
-A tua vida não. Mas o teu sossego talvez sim.
-Agradeço pela sinceridade. Mas porque raio disseste tu o meu nome a dormir?
-Não sei. Nem sequer sei com o que é que estava a sonhar.
-Ok…. Olha agora tenho de ir. Há outros pacientes que precisam de mim e eu não quero ser processado por dar mais atenção a uns que a outros.
-Não hei de ser eu a fazê-lo de certeza.
-Pois eu sei que sim….
Ele saiu do quarto e foi fazer o seu trabalho. EU disse o nome DELE a sonhar. E a minha mãe ouviu. Ao menos foi a minha mãe. Se fosse ele eu nem sequer sei muito bem o que faria.
Provavelmente corava e paralisava de vergonha ou então desatava a dizer-lhe que deve ter sido impressão dele e que eu não teria razões nenhumas para fazer isso.
Preciso de alguém para falar sobre isto…Será que posso usar o meu telemóvel?

“-Marta?
-Sara. Meu Deus há quanto tempo. Como é que estás?
-Dentro dos possíveis.
-E então quando é que te pões boa?
-Infelizmente não sei. Isto não é assim tão fácil.
-Eu só posso imaginar.
-E eu espero que fiques por aí.
-Podes crer amiga. Não vou sair de casa para nada.
-Ahahaha.
-Não sei qual é a graça Sarinha. Sinceramente, estou capaz de matar aquele Rafael.
-Não te preocupes. Ele há-de morrer de hipotermia por causa do gelo que a sua                    alma é.
-Não duvido. E então novidades tens?
-Para além de um médico de sonho a tratar de mim? Acho que não podia desejar  
mais nada.
-A sério! Conta lá isso…
-Ele é um amor….
-E tu gostas dele?
- Não sei. Mas acho que ele gosta de mim.
-Então aproveita, amiga. Tu mereces isso.
-Mereço, não mereço?!
-Claro que sim, amiga. Faz-te a ele. Aposto que até no hospital continuas a  ser                    capaz de ser sensual.
-Meu deus, Marta, eu estou doente.
-Claro, claro. Primeiro põe-te boa. Mas depois já sabes.
-Sem falta.. Ahahah
-Então adeus, Sara. Vou ter saudades tuas.
-Ainda nem desligamos e eu já tenho ahahah.
-Não tornes isto mais difícil, amiga.
-Adeus, Marta.
-Adeus, Sara.”
Desatei a chorar. Deixei o telemóvel debaixo da almofada tal como a minha mãe disse para fazer. Estava mesmo a precisar de falar com ela. Isto aqui é muito depressivo.
Ouvir os passos apressados dos enfermeiros e dos médicos, as pessoas a chorar e a gritar, as saudades, o isolamento já para não falar das paredes brancas que apesar de transmitirem paz ao início depois começam a mostrar o vazio dentro de nós.
O pior deve ser as pessoas que sustentam a família e que depois têm de ficar internadas. O dinheiro também tem faltado com toda a gente em casa. A economia do país está cada vez pior.
Mas o governo diz que as coisas vão melhorar. Espero bem que sim. Estou cansada de estar aqui fechada. Ainda se eu pudesse estar em casa. Assim eu ainda aguentava. 
Aqui estou perto da minha mãe e do David.  Está bem que eu conheço o David há pouco tempo, mas sinto-me muito segura com ele. Mas não é a mesma coisa. Porque é que isto não pode simplesmente acabar?
QUERO ACORDAR DESTE MALDITO PESADELO!!!
Mas não importa quantas vezes eu o diga ou deseje. Quantas vezes eu o grite ou sussurre.
Quero paz e sossego. Vou fazer a única coisa que se faz de jeito aqui neste sítio. Dormir…

Acordei com uma data de vozes. Abri os olhos e vi a minha mãe e o David a agarrar num bolo de bolacha. Tinha umas velas com os números 23.
Começaram a cantar a música dos parabéns.
Comecei a rir e a chorar ao mesmo tempo. Eu estava ali há tanto tempo que tinha perdido a noção do tempo. Estava tão ocupada a pensar noutras coisas que me tinha esquecido do meu aniversário.
Do meu próprio aniversário… O ponto a que isto leva as pessoas a chegar.
Comi com vontade e depois eles arrumaram aquilo tudo. Antes de se ir embora, a minha mãe vem ter comigo.
-Então filha, sentes-te bem? Pelo menos melhor?
-Nem por isso. Acho que estou na mesma.
-Tem calma, filha.
-Eu tenho, mãe.
-Vais te curar vais ver.
Depois ela foi-se embora. “Só acredito quando existir uma vacina”, pensei eu. A ciência leva tempo. Só que as pessoas não têm muito.
Eu sentia-me perfeitamente.
                                                             …

O dia passou rápido. Foi bom. Não foi o melhor dia até hoje, mas foi melhor que os últimos que passaram.
Eu já nem sei o que pensar ou o que dizer.
O dia foi cansativo. O melhor que eu tenho a fazer é dormir. Mas vou-me destapar que estou cheia de calor.
Acho que os lençóis do hospital são quentes. Pelo menos hoje parece que sim…


                                             CAPÍTULO 8

As vozes da minha mãe e do David ecoavam pela minha cabeça e provocavam-me dores de cabeça, mas não conseguia perceber o que eles diziam. Algumas partes de frases eu percebia. Mas nem sequer me estava a esforçar para isso.
As luzes do teto fazem-me querer fechar os olhos, mas eu luto para os manter abertos.
“Ela pode estar a ter ilusões” “Temos que chegar depressa aos cuidados intensivos e ligá-la ao ventilador” “A febre dela está muito alta, precisamos de lhe baixar a febre” “Eu sei, mas acho que devíamos primeiro de levá-la até lá e depois sim baixar-lhe a febre.” “Talvez isso fosse o melhor mas ela é minha filha e eu nem sei se o corpo dela aguenta com a febre” “Mas eu sou o seu médico e visto que a doente é asmática precisa de ser urgentemente ligada ao ventilador.  Se tem problemas de ar não convém que ganhe mais porque a mãe dela não está a pensar racionalmente.”
-Parem de discutir e despachem-se - disse eu
Ao longe, conseguia ouvir gemidos de dor de uma mulher. Só algum tempo depois é que eu me apercebi de que essa mulher era eu. Era eu que estava num estado lastimável.
O vírus estava a consumir lentamente o meu corpo. Estava a deixar-me cada vez mais fraca. Cada vez mais cansada. A pouco e pouco ele estava a deitar-me abaixo.
Mas isso não podia acontecer. Não pode. E eu não vou deixar que aconteça.
Chegámos a uma sala fria. Ou eu é que estava muito quente. Deitaram-me na cama e ligaram-me ao ventilador. Senti-me um bocado melhor, mas não era o suficiente para me aliviar a dor nos pulmões.
Depois deram-me um comprimido qualquer, mas eu não o conseguia engolir por isso tiveram de o pôr no soro.
“A febre já está a baixar Doutor David” “Ok. Quero que lhe dêem aquilo que ela precisar.” “Sim Doutor” “Desculpa ter gritado contigo. Eu sei que ela é tua filha, mas é tão importante para ti como para mim. Era-me impossível dar-lhe logo o comprimido para a febre se ela não conseguisse respirar” “Não te preocupes. Eu não fiquei chateada. Tinhas razão, eu não estava a ser racional. Devia confiar mais em ti. Ela está em boas mãos contigo”
Eu sei que não tinha força nenhuma para fazer nada e que agora precisava de descansar já que o meu corpo ficou inconsciente e a minha mente também e que ficou cansado enquanto combatia o vírus para evitar que a coisa ficasse pior.
            Ainda assim esforcei-me para dizer aquilo. Ela precisava de ouvir-me a dizer aquilo.
            -Mãe?
                -Sim filha?
            -Amo-te- tentei dizer com mais energia e vivacidade.
            Depois foi deixar o meu corpo ir abaixo…

            Acordei com a luz da janela a bater na minha cara. Se no quarto anterior tinha alguma companhia, agora não tenho mesmo nenhuma. As cortinas estavam todas abertas e tinha o tabuleiro com o almoço perto de mim. O suficiente para não acontecer outro acidente.
            Se o almoço estava ali e já estava frio eu nem quero imaginar que horas serão. Tentei comer, por muito pouco que me apetecesse. Mas prometi a muita gente que faria de tudo para combater o vírus e sem me alimentar é que eu não vou lá de certeza.
            O branco do teto e das paredes já me enerva e me estressa. Não valia de nada tentar dormir porque dormi tanto que nem tinha sono nenhum. Tentei arranjar alguma coisa para fazer.
            As dores no corpo são muitas e nem falo das de cabeça. Fiz um esforço para me sentar por estar farta de estar deitada.
Entretanto entrou uma enfermeira “de plástico” no quarto e levou o tabuleiro.
-Precisa de alguma coisa, menina?
-Onde é que eu estou?
-Nos cuidados intensivos. Você devia se deitar. E devia estar quieta. Estar a gastar as suas energias para se mexer é desnecessário.
-Não se preocupe comigo. Sou mais teimosa que este vírus e não me vai levar tão facilmente.
-O Doutor David bem me tinha dito que a menina era inteligente e forte. Mas é melhor se deitar. Já vi muita gente aqui que foi desta para melhor por serem teimosos.
-O Doutor falou sobre mim?
-Falou? Está sempre a falar… Até parece que não existe mais nenhuma mulher na vida dele. Mas agora tenho de ir. E não lhe diga que eu lhe disse isso.
-Não se preocupe. Pode ficar descansada com isso.
Nunca pensei fazer parte de fofocas. Com que então ele fala de mim. Oh. Pode falar só por causa de eu ser filha de uma amiga e colega de trabalho sua.
Quando estava muito bem a pensar nas possibilidades de sair dali vivinha da silva e de tentar a sorte com ele começou-me a doer os pulmões e comecei a tossir de tal maneira que nem conseguia parar para recuperar o fôlego.
“Bosta” pensei. Como estive inconsciente e depois a dormir não sei o que fazer ou onde carregar para chamar ajuda. Tentei procurar um botão azul mas nada. Encontrei um botão que tinha lá pendurado um papel a dizer AQUI.
Não sei se aquilo era para mim, mas carreguei lá à mesma. Um minuto depois estavam dentro daquele quarto duas enfermeiras e o David. Conseguiram acalmar-me a tosse e ajudar-me a recuperar o ar.
Quando já estava mais calma e mais estável o David disse-me:
-Não posso ficar aqui. Tenho outros pacientes e é perigoso eu permanecer aqui muito tempo. Por favor faz aquilo que as enfermeiras te pedirem. Seria horrível para o mundo perder alguém tão corajoso e incentivador como tu.
-Prometo.
-Cuida de ti. Esquece os outros por um bocado agora e pensa em ti, Sara. Faz isso não por ti, mas por todos aqueles que te adoram e que te amam.
Ele piscou-me o olho e saiu. A enfermeira ajudou-me a voltar a deitar-me e depois de me trazer água saiu do quarto também. Mais uma promessa. Não sei se as consigo cumprir porque desta vez vou ser sincera.
Estou cansada de lutar. Tenho o corpo todo dorido e exausto. A minha mente já não aguenta. Os batimentos do coração já estão fracos e os pulmões já nem se conseguem encher completamente.
Só de respirar já me dá dores. Estou a tentar ser forte porque não quero estragar as esperanças daqueles que esperam que eu fique bem. Mas já não consigo muito.
Estou a dar o meu melhor. Mas às vezes meto-me a pensar. E se o meu melhor não for suficiente. Este vírus já levou milhares de pessoas e de certeza que algumas eram mais fortes do que eu.
Também tinham família em casa à espera que eles regressassem e isso não aconteceu. Porque há de ser diferente comigo? Não sou especial. Não sou nem melhor nem pior que eles.
Eu não consigo lutar mais. Não é por não querer tentar. Também não é por me apetecer desistir. É por não conseguir. Por não me sentir mais capaz disso.
O vírus já consumiu o meu corpo. Já o dominou. Já o controlou. Agora é só levar-me para o outro lado pouco a pouco. E sinto que já não falta muito para isso acontecer.
A única coisa que eu tenho pena é de não conseguir despedir-me daqueles que me são próximos e queridos como deve ser.
Se tenho medo da morte? Da partida para o outro lado? De ir para o Inferno ou para o Paraíso? Não, não tenho medo. A única coisa que me assusta é de partir a saber que não fiz nada para me manter viva.
Mas eu fiz. Eu estou a fazer. E mesmo que não seja suficiente ao menos eu sei que tentei. Mas ainda é cedo para desistir. Ou será que já não é?

Preciso do meu pai. Preciso da minha mãe. Mas o que eu mais preciso é da minha vida de volta.
Quero que tudo volte ao normal. Mas não vai ser assim tão fácil. Ainda não existe nenhuma vacina e não me parece que ela vá chegar assim tão fácil.
As pessoas estão a entrar em pânico. Elas nem imaginam o que é estar no hospital. A angústia que isto é. E os barulhos, gritos e vozes dos lados de fora dos quartos também não ajudam muito.
A quantidade de médicos e enfermeiros infetados também já é bastante elevado. Isto está cada vez pior e nada está a impedir este vírus de progredir. Ele já sofreu inúmeras mutações e isso também está a dificultar a criação e a descoberta da vacina.
Mas depois há aquelas pessoas que levam isto a brincar e que não se importam com as regras impostas. Depois quando acontece queixam-se e dizem que não sabem porque é que lhes aconteceu.
Nem preciso de ir muito longe, temos o exemplo do Rafael. Só que ele não está fechado num quarto de hospital, nos cuidados intensivos e quase a morrer!


Estou cada vez mais farta e cada vez mais fraca. As enfermeiras bem podem negá-lo e bem podem tentar enganar-me, mas eu sei que é verdade. Mal consigo abrir os olhos e custa-me imenso comer.
Passo o dia a chorar, quando estou aqui sozinha. Não posso deixar o David e as enfermeiras verem-me a desistir da vida.
No quarto ao lado do meu está uma recém-mãe infetada que está muito mal. Ela deu à luz ontem o bebé. Pelo que eu consegui perceber acho que é um menino. A mulherzinha deu o nome do pai da criança ao menino, que já lhe foi arrancado das mãos pelo vírus.
E eu que pensava que a minha história era muito má. Isto é tão depressivo que sinto que, se sair daqui viva, vou para um psicólogo.
Não tenho muito mais novidades para dar, não sei as atualizações dos números, nada, mesmo nada. Nem em que dia vamos eu sei.
Já perdi a noção do tempo, dos dias, das horas. Até tenho os sonos todos trocados. Durmo de manhã e depois passo a noite toda acordada.
E nem de noite o barulho acaba. Continua tudo em movimento e a gritar para aqui e para ali. Que falta isto, que o paciente tal precisa daquilo. O pior é ouvir os enfermeiros a dizer que o COVID-19 levou mais uma pessoa consigo.
As pessoas estão todas a dar em malucas com isto tudo. É filho que mata mãe, pai que mata filha, divórcios, presos por infração às regras, pessoas que são presas por assaltar lojas para roubar comida e bens essenciais.
Anda tudo maluco. Imagino o trabalho que o meu pai não tem tido. Espero que os meus pais se continuem a dar bem. E a Marta. Como é que será que ela está? E os pais dela?
É incrível como as coisas mudaram de um dia para o outro. Como a vida deu mais uma reviravolta quando toda a gente pensou ser impossível. Uma coisa tão pequena e tão poderosa e destrutiva. Mais parece uma hipérbole. Oxalá que fosse.
A minha mãe prometeu-me, através do David, que vinha cá hoje à tarde 5 minutos para me ver. Disse que tinha uma coisa para mim.
Não sei o que é, mas já estou curiosa. Há muito tempo que não vejo uma cara amiga e acho que a visita da minha mãe me vai fazer bem. Talvez me ajude a levantar um pouco.
Não me vou dar por vencida por nada neste mundo, mesmo que ele se esteja a destruir. Não o vou fazer por aqueles que me adoram e que estão em casa à minha espera.
Vou fazê-lo por mim. Porque eu mereço. Porque já fiz muito pelos outros e agora está na hora de fazer algo por mim. De lutar pela vida e de a aproveitar à grande sem estar limitada pela opinião dos outros.
O primeiro passo deste meu novo “projeto” é curar-me e sair do hospital. O meu segundo passo seria, pelo menos era, tentar as coisas com o David.
Mas como eu suspeitava ele não se preocupava comigo por ser eu ou por gostar de mim. Na verdade, era porque eu sou filha da sua amiga e mais nada. Pois é.
O que é que eu posso fazer? Sou boa demais para qualquer rapaz que existe à face da Terra. Da Terra e de qualquer outro planeta ou galáxia onde haja vida.
É a minha vida que está em causa e ninguém se mete comigo ou com a minha vida. Já chegou o Rafael. Não vou deixar que mais ninguém o faça. Ou que ele o continue a fazer.

Como combinado a minha mãe apareceu à tarde. Não falamos muito, mas ela deu-me um papel. Quando ela saiu eu abri-o e li o que estava lá escrito. Não consegui evitar chorar...
Um papel com as assinaturas de toda a gente que eu mais adoro no mundo com algumas frases incentivadoras.
Aquilo era lindo. Uma coisa tão pequena. Acho que já não preciso de ligar a ninguém. Aquilo é a prova de que aquelas pessoas, embora poucas, acreditavam em mim, e iam continuar a adorar-me mesmo que eu desistisse.
Que me apoiam seja qual for a circunstância….  Têm orgulho em mim. Naquilo que eu sou. Eu só espero não os desiludir…..


                                         CAPÍTULO 9

“Despachem-se, estamos a perder a miúda.” gritava alguém.
“O ventilador não está a fazer nada e não está a ajudar.”
“O batimento cardíaco está quase nulo.”
“Quero o desfibrilador a 200”
“Sim, Doutor”
Tudo à minha volta estava desfocado. Via pessoas ao meu lado. Os gritos ecoavam na minha cabeça. Olhei para o lado e vi a linha do meu batimento cardíaco nulo.
“Começar a reanimar”
Eles encostaram aquilo ao meu peito, mas eu não senti nada. Eu estava morta, mas continuava a pensar. E a vê-los.
            10 minutos depois fui dada como morta. Vi a cara da minha mãe a olhar para mim com a mesma cara que olhou para o meu irmão. Tudo à minha volta começou a desvanecer-se. Vi o Rafael.
            -O que é que fazes aqui?
            -Vim ver-te a sofrer.
            -O quê?!
            -Ahahahahah
            -Para de te rir.
            -AHAHAHHAHAHAHAH
            -PARA.
AHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH O seu riso começou a soar a um alarme. BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP BIP.
        
Acordei sobressaltada. O alarme estava a tocar para irmos para o balneário tomar duche. Eu estava no meu quarto com a Marta na cama ao lado. Ainda estávamos na escola.
            Na noite anterior tinha prometido a mim mesma que ia lutar pelo Rafael. Parece que vou quebrar essa promessa.
            A Marta levantou-se e quando ia a sair do quarto perguntou:
-Está tudo bem contigo, Sara?
-Sim…
-Olha eu vou andando para o balneário.
-Eu já vou …
-Ok.
Parece que não passou tudo de um sonho. E ainda bem. Mas agora que o problema com o Rafael já estava resolvido há agora uma outra grande questão que me assombra a mente.
E se um vírus como este realmente invadisse o mundo?



                                                                               Beatriz Morais, 10ºAno


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